Meritocracia versus Valor Humano

Meritocracia2a Valores-Morais

Na sequência dos textos do meu próximo livro, dedicado ao Valor Humano, não podia deixar de abordar um tema que pode confundir ou ajudar a desfocar a dimensão do referencial que estou a desenvolver. Esse tema é o da Meritocracia.

“Meritocracia (do latim meritum, “mérito” e do sufixo grego antigo κρατία (-cracía), “poder”) é um sistema de gestão que considera o mérito, como aptidão, a razão principal para se atingir posição de topo. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento e entre os valores associados estão educação, moral, aptidão específica para determinada atividade. Constitui-se uma forma ou método de seleção e, num sentido mais amplo, pode ser considerada uma ideologia governativa.” (fonte: Wikipédia)

Não nos podemos esquecer que o amplo referencial onde o sistema meritocrático está inserido, ‘mergulha’ de cabeça no valor do dinheiro e nas questões de poder. Deste modo, é normal o sistema ser desvirtuado por ausência de Valores Humanos que devem estar sempre interligados com o conceito. É, na grande maioria das situações em que se aplica, um sistema desfocado do Ser Humano. Ou seja, o referencial é variável e ajustado consoante as circunstâncias.

Michael Young (1958) no seu livro “Rise of the Meritocracy” aborda o tema da meritocracia num sentido pejorativo, diferente do comum ou daquele usado pelos defensores da meritocracia. Para estes, mérito significa habilidade, inteligência e esforço. Uma crítica comumente feita à meritocracia é a ausência de uma medida específica desses valores, e a arbitrariedade de sua escolha.

No texto que escrevi anteriormente sobre o “Valor Humano” (https://saalmeida.wordpress.com/2015/03/20/valor-humano/?preview=true&preview_id=508&preview_nonce=525a7b7895&post_format=standard) esclareço os propósitos e a dimensão deste meu referencial. Assim: O Valor Humano é essencialmente um Valor intrínseco ao Homem na sua relação consigo e com os que o rodeiam. De certo modo, é um Valor Social pois o Homem é um Ser que vive em Sociedade e para quem a Vida solitária não está de acordo com a sua génese.

Igualmente, o Valor Humano passará a ser considerado como uma valorização económica (onde o dinheiro deixará de existir), pois está sujeito a uma avaliação realizada por Pessoas qualificadas para o efeito. É dessa avaliação objetiva, como Pessoa íntegra e capaz de se relacionar com os outros pares, de cada Ser Humano presente neste Planeta, que resultará o seu Valor como Humano capaz de contribuir para o bem da Sociedade e o seu desenvolvimento. Cada Pessoa Vale pelo que é, pela sua coerência, pelo seu caráter e personalidade, e como se comporta em Sociedade durante a sua Vida. A sua presença e respetiva identificação são suficientes para lhe permitir (ou não) manter a sua dignidade como Ser Humano com direito a todos os elementos básicos de uma Vida Humana (água, alimentos, energia, condições de habitabilidade, Educação, Trabalho, Saúde, Justiça e Segurança). Mas com deveres intrínsecos de Ser Humano sobre toda a VIDA, seja ela Humana ou não, assim como, sobre o Bem Comum.

Quanto mais desenvolvidos e elaborados os Valores Humanos estiverem em cada um de Nós, com uma perspetiva de Futuro Coletivo, onde a Inteligência e Consciência Coletivas são as orientações referenciais, mais Valor Humano teremos, e, como consequência maior capacidade de influência sobre a Sociedade e definição das orientações Futuras para a Sociedade. Aqui o Poder é representado por essa capacidade de influenciar o Futuro da Humanidade, pela demonstração da sua capacidade de Valor Humano.” – Alfredo Sá Almeida

Para mim, o mérito deve estar sempre focado no essencial: o Ser Humano e a sua capacidade, inteligência e esforço de ganhar Valor Humano. Neste meu referencial universal o valor do dinheiro não tem existência, e as relações de poder são distintas, como tal não poderão desvirtuar o mérito.

Para podermos ter uma compreensão maior sobre o tema da meritocracia no mundo atual, onde o valor do dinheiro reina em todas as frentes, transcrevo partes de um texto brilhantemente escrito por Paul Verhaeghe (que recomendo que leiam na integra), em 29/09/2014 no The Guardian, intitulado O neoliberalismo trouxe à tona o que há de pior em nós.

[Paul Verhaeghe, PhD, é professor sénior da Universidade de Ghent e ocupa a cadeira do departamento de psicanálise e aconselhamento psicológico. Ele já publicou oito livros, cinco deles traduzidos para o Inglês. O mais recente deles é: “What About Me? – A luta pela identidade em uma sociedade baseada no mercado”.]

(http://alienado.org/2014/10/01/o-neoliberalismo-trouxe-a-tona-o-que-ha-de-pior-em-nos-29092014/)

“Nós tendemos a perceber nossas identidades como estáveis e em grande parte desconectadas de forças externas. Mas ao longo de décadas de pesquisa e prática terapêutica, convenci-me de que a mudança económica está tendo um profundo efeito não apenas nos nossos valores, mas também em nossas personalidades. Após trinta anos de neoliberalismo, as forças do livre mercado e da privatização têm feito as suas vítimas, ao passo que a pressão implacável em busca do “sucesso” virou norma. Se você está lendo isto com ceticismo, eu faço esta simples afirmação: o neoliberalismo meritocrático favorece certos traços de personalidade e penaliza os outros.” – Paul Verhaeghe

“A meritocracia neoliberal nos quer fazer crer que o sucesso depende do esforço individual e talento, ou seja, a responsabilidade recai inteiramente sobre o indivíduo e as autoridades devem dar às pessoas o máximo de liberdade possível para atingir esse objetivo. Para aqueles que acreditam no conto de fadas da livre escolha, autogoverno e autogestão são as mensagens políticas proeminentes, especialmente se eles parecem prometer liberdade. Junto com a ideia do indivíduo em eterno aprimoramento profissional, a liberdade que imaginamos ter é a maior mentira desta era.” – Paul Verhaeghe

“Há lamentos constantes sobre a chamada perda de normas e valores da nossa cultura. No entanto, nossas normas e valores formam uma parte integrante e essencial da nossa identidade. Assim, eles não podem ser perdidos, apenas alterados. E isso é precisamente o que aconteceu: uma economia transformada reflete uma ética alterada e provoca uma identidade corrompida. O atual sistema económico está trazendo à tona o pior em nós.” – Paul Verhaeghe

Mais recentemente (4 de Junho de 2015), o ‘Portal VERValores, Ética e Responsabilidade’, publicou um artigo da Jornalista Gabriela Costa, intitulado “Instituições portuguesas sem valores ou mecanismos assentes no valor do mérito” que deve ser objeto de uma leitura atenta sobre o tema da Meritocracia em Portugal.

(http://www.ver.pt/instituicoes-portuguesas-sem-valores-ou-mecanismos-assentes-no-valor-do-merito/)

Neste artigo, a Jornalista Gabriela Costa apresentou “os resultados de uma larga investigação, realizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que avalia os valores e qualidade das instituições nacionais, a partir da perspetiva de quem dirige e trabalha em seis organizações “emblemáticas” do País sobre fatores de desenvolvimento como meritocracia, proatividade e inovação tecnológica, mas também sobre constrangimentos como a existência de corrupção e ‘ilhas de poder’. A gestão em Portugal não pratica a meritocracia, mas pratica jogos de influências, sobre os quais se mantém uma tolerância generalizada.”

Resumindo, “Os resultados do inquérito respondido por 1346 funcionários das seis entidades estudadas no estudo “Values, Institutional Quality, and Development” evidenciam a falta de importância que a competência e o mérito merecem, no nosso país: somente 16% dos respondentes acreditam que “se seguirem as regras e fizerem o seu trabalho de modo competente, as pessoas são promovidas”.

Estes resultados evidenciam duas situações distintas, por um lado a meritocracia está pouco difundida nas organizações empresariais e governamentais de muitos Países, e aquela que está instituída encontra-se deturpada, desfocada e desvalorizada pelo referencial em que se encontra ‘mergulhada’ – o valor do dinheiro e o poder.

A meu ver, é urgente uma mudança de Paradigma da Sociedade Global atual, onde o valor monetário domina e produz sistematicamente mais e mais desigualdades entre Humanos, sem melhorar significativamente os padrões de dignidade Humana. É o referencial atual que tem de ser profundamente alterado e da mudança resulte o que agora defendo – Valor Humano.

Alfredo Sá Almeida                                                                                                      6 de Junho de 2015

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Alfredo Sá Almeida                                                                                      5 de Junho de 2015