Poderemos erradicar a pobreza, para sempre?

Conversa/debate sobre o tema em título, entre o meu amigo Joaquim Serra e eu próprio, sobre um post no Facebook.

Se os meus Leitores se sentirem ‘atraídos’ pelo debate, comentem neste Blogue sobre este tema. Muito Grato a todos pela vossa disponibilidade.

Erradicar a pobreza(https://www.facebook.com/TheEconomist/videos/10156060919354060/)

Joaquim Serra – (Autor do post) Introdução postada: “Vale a pena uma reflexão profunda.

Vale a pena um exercício de Prospectiva, pelo menos para refletir sobre o “tipo de mundo” em que seria desejável de vivermos.

A Pobreza é o maior estigma social que caracteriza o nosso mundo, a sua maior causa decorre do Género de Vida que instituímos e estruturámos.

Reflecte a Mentalidade miserável que lhe está subjacente.

Uma mentalidade errónea, enviesada, distorcida, civicamente deficiente, da qual fizemos a Cultura que modela a nossa Civilização.

Ainda acha que o problema é o Dinheiro?

Se acha que o problema é o dinheiro, é porque anda muito distraído, abstraído pelo dinheiro, alienado da realidade da vida.

(Já “escorregou” para dentro daquele buraquinho, ou buracão, depende do tamanho do Ego, que existe no meio do abdómen. Onde o horizonte mais distante que se vê é o próprio fundo. Às vezes nem se consegue ver nada, é escuro demais, tal é a profundidade do fundo.)”

Alfredo Sá Almeida – “O grande problema é a falta sistemática de Educação, caro amigo Joaquim Serra.

Sem ELA estes grandes problemas da Humanidade não poderão ser resolvidos. Todos os outros Serviços Sociais de suporte (Saúde, Justiça e Valores Humanos) serão cada vez mais indispensáveis e bem estruturados. O Dinheiro tem muita dificuldade de aceitar esta maneira de resolver os problemas, por ser muito caro e não favorecer a economia.

A Vida do Homem continua a não poder depender da Economia para resolver os seus problemas (muito menos do mundo financeiro).

Se somos Inteligentes (em todas as vertentes) então utilizemos essa inteligência para desfazer a ‘teia’ em que nos envolveram para selecionar os ‘melhores’. Como se os problemas se resolvessem por seleção. Os problemas resolvem-se com empenho, dedicação e um foco essencial na Humanidade das atitudes e comportamentos dos Cidadãos.

A meu ver o Dinheiro é parte do problema. Sem Valor nada se resolverá.”

Joaquim Serra“Caro amigo Alfredo Sá Almeida, a Vida do Homem numa grande dimensão é a Economia.

O problema não é a Economia, mas sim a Política Económica sob a qual se estrutura e se institucionaliza toda a atividade humana. São os VALORES subjacentes a essa política que determinam os resultados que obtemos e são traduzidos na realidade em que vivemos.

O dinheiro é um meio, que sistematizámos para facilitar a vida. Nada mais que isso.

O problema não é de origem económica ou financeira, como se pretende fazer crer.

O PROBLEMA é de origem filosófica, e profundamente relacionado com a MORAL e a ÉTICA, ou seja, o conjunto de valores, a axiologia em que baseamos o nosso género de vida. É com esses valores que temos estado a modelar a EDUCAÇÃO e a fazer CULTURA.

Temos andado a EDUCAR MAL. Muito mal mesmo!

E quanto mais educarmos nessa base, mais enredados ficaremos nessa teia.

O envolvimento (processo) em que somos metidos, e ao qual somos submetidos, aquele que mais nos condiciona, sobretudo mentalmente, é a educação.

Essa é que é a determinante, lógica, óbvia.

É um facto!

Somos muito inteligentes, sem dúvida alguma, mas de uma maneira geral somos exageradamente emocionais e pouco racionais, e isso atrapalha os nossos senso crítico e analítico quando nos confrontamos com problemas e temos que os resolver de forma ponderada e lúcida para que a solução seja integral, pois uma meia solução não é a melhor solução.

A educação, e nesse aspecto a ESCOLA(s), tem desempenhado um papel social e culturalmente preponderante, salvo raras exceções, desde o infantário até à universidade, têm servido mais à promoção da ADERÊNCIA a um ideário, e de OBEDIÊNCIA a esse ideário, do que propriamente à formação de seres humanos livres, autónomos, com senso crítico e analítico, capazes de utilizar todo o seu potencial racional e emocional em benefício da HUMANIDADE e de si próprios.

A escola que criámos tem tido mais o propósito de justificar o género de vida que adoptamos, e que não é humanamente satisfatório, do que o de mudança para um género de vida melhor em termos de justiça social, justiça económica, justiça cultural.
Alguns dos VALORES com que temos sido educados não nos servem, não prestam serviço algum à humanidade e ao indivíduo.

Alguns dos VALORES sobre os quais estruturamos as nossas instituições têm como único propósito perpetuar a injustiça social, a injustiça económica, e a injustiça cultural em benefício de uma minoria.

É preciso erradicar esses valores, e só os podemos erradicar não sendo solidários com eles, não os respeitando, não os tolerando, não os aceitando, e nem sequer os permitindo, mais, devem ser condenados.

A escola deveria habilitar o indivíduo a SABER SANCIONAR. A saber distinguir aquilo que merece aprovação, daquilo que merece condenação, tanto nele próprio como nos outros.

Não vejo esse exercício cívico e moral nas escolas, excepto uma ou outra, perdidas no obscurantismo promovido pela ignorância intencional institucional.

Pelo contrário, vejo muitas escolas, para regozijo de alguns analfabetos morais, deficientes cívicos, a “ensinarem” às crianças que, “Devemos ser solidários”… “Devemos ser tolerantes”… “Devemos obedecer”… “Devemos respeitar”… “Devemos amar”… Apenas porque sim! Sem lhes explicarem os conceitos, e sem lhes apresentarem quaisquer critérios, e sem lhes exemplificarem as causas e consequência. Partem do princípio que as crianças não são inteligentes nem capazes de avaliar a realidade. As crianças são tão só ignorantes, e o que se faz é explorar e manipular essa ignorância! Isso apenas confunde, não só as crianças, mas também muitos adultos.

É abjeto, é criminoso!

Até penso que a maior parte, se não todas, das depressões nervosas são causadas por esse método de “ensinar”, que imbeciliza mais do que cultiva, e gera multidões de gente amorfa, apenas motivada pelos instintos mais básicos, ao sabor das emoções mais disparatadas, incapazes de se relacionarem umas com as outras, e incapazes de se relacionarem com realidades abstratas e transcendentais, como o dinheiro, Deus, matemática, etc. etc.

Gente Bem-educada é perigosa!”

Alfredo Sá Almeida – “Caro amigo Joaquim Serra, em parte estou de acordo com a sua perspetiva, aquela em que refere e defende os Valores e critica a má Educação que tem sido ministrada.

Sobre o Dinheiro, o grande problema é que ele não é um meio, “que sistematizámos para facilitar a vida”, tornou-se um fim em si uma ‘religião’ fanática que aprisiona todos os que nela se cultivam. Acaba se sobrepondo a TODOS os outros Valores que de melhor o Homem possui. Subverte-os, distorce-os, sufoca-os, pressiona-os, domina-os, etc.
O Homem terá muita dificuldade em domar o dinheiro, porque ele é o objeto da corrupção.

A Liberdade que devemos possuir interiormente e de atitudes e comportamentos, acaba por descambar para o lado mais fácil e de poucos Valores – o Dinheiro. Teremos sempre a tendência de reduzir tudo à mínima expressão o dinheiro, para facilitar TUDO.
Os Valores são o elemento complicador e complexo da vida (na ótica do dinheiro). As Pessoas querem uma vida fácil e fluida onde a Liberdade domina a perversão dos Valores.”

Joaquim Serra“Alfredo Sá Almeida, não é na ótica do Dinheiro que os valores são complexos e complicadores. Nesse âmbito há de facto muita complexidade e complicação, quando esses valores não são conceituados, explicados, para que possam ser compreendidos e apreendidos, mas acima de tudo validados.

A maioria de nós não aprendemos a relacionarmo-nos com coisas abstratas. Trocamos os fins pelos meios. Procuramos atalhos. Tentamos suprimir da “equação” tudo o que não compreendemos.

Faltam-nos os critérios que nos habilitariam e legitimariam a sancionar os outros e a nós próprios. Aliás, sancionar, julgar, passou a ser um exercício condenável, e portanto não se faz validação de princípios e valores, nem tampouco se reflecte sobre essa dimensão. “Compra-se”, consome-se, baseado em emoção, numa relação binária de gosto x desgosto, favorece-me x não me favorece, só, e no imediato. Passou a ser este o único critério para qualquer decisão.

Sob o lema irreflectido do “Errar é humano” tornámo-nos, ou quisemos tornar-nos inimputáveis, fomos permissivos a esse nível.
Não é a Liberdade que domina a perversão dos valores, mas sim a libertinagem, não é a atitude moral que produz maus valores, mas sim o moralismo, não é o capital que corrompe, mas sim o capitalismo, não há mal em termos consciência social e comunitária, mas produz-se muita injustiça através do comunismo, contrariamente à intenção e aquilo que defendem os seus aderentes e simpatizantes.

Nas escolas, e na educação que ministramos, não se está a ensinar a fazer essas distinções.

A educação perdeu significado e sentido. Em Portugal, e em muitos outros países desenvolvidos, a evasão escolar é alarmante, contudo não se discute nem se reflecte sobre a causa dessa situação. E é notável a quantidade de mentecaptos que saem das escolas e universidades, e o pior de tudo, é que estamos a deixar que esses mentecaptos nos governem, isto é, que sejam eles a fazer as políticas sociais e económicas, e a administrar a justiça.

Não foi o dinheiro que gerou essa situação. Foi a falta de uma EDUCAÇÃO de qualidade, falha de valores e falha de critérios para se estabelecer uma axiologia digna de seres humanos.

Por isso é que as pessoas se subordinam tão facilmente às ideologias, às idolatrias, às modas, às mentalidades de massa, até conseguem subordinar-se ao dinheiro.

Hoje em dia, no nosso mundo, há todo o tipo de prostituição: Prostituição sexual, mental, intelectual, ideológica, religiosa, empresarial, laboral, sindical, estatal, privada, nacional…

O problema não está no dinheiro, está no tipo de gente que andamos a “formar”: Prostitutos.

Fazem qualquer coisa por conveniência imediata, até por dinheiro, que custa menos a carregar e não se vê a origem, o que dá um jeito enorme para manter as aparências.”

Alfredo Sá Almeida – “Joaquim Serra estou a gostar desta nossa conversa/debate.

Tem razão naquilo que defende. Eu também defendo o mesmo – uma Educação de Qualidade para TODOS. Tenho muitas dúvidas (mas muitas mesmo), com os mecanismos, procedimentos, incentivos, etc. que foram criados pelo Dinheiro e para o Dinheiro, se alguma vez o Homem (a continuar o mundo do Dinheiro como está!) conseguirá secundarizá-lo do modo como o meu amigo o secundariza.

A minha esperança maior é que o Homem relegue o dinheiro à sua ínfima expressão e priorize o Valor Humano em TODOS os momentos da dinâmica da Vida.”

Joaquim Serra“Alfredo Sá Almeida num exercício de prospectiva, inspirados pela “utopia” de um mundo melhor, poderemos resgatar valores que valham a pena, custe o que custar.

Tenho a certeza que não precisaremos de relegar o dinheiro a uma ínfima expressão, afinal, por trás do símbolo, e adjacente à sua função monetária, económica e financeira, poderão estar valores que merecem ser demonstrados e o dinheiro servirá de instrumento (prestará esse serviço, como meio próprio da sua função) para viabilizá-los, de forma rápida, segura, confortável.

Poderemos também, e deveremos fazê-lo, destapar o que está por trás de muito do dinheiro que circula por aí. Nessa altura teremos que estar aptos e habilitados, seguros, conscientes, para realizar tantas sanções quanto necessário, algumas de aprovação, de reconhecimento e exaltação, outras de condenação que irão requerer punição, pena e castigo.

Temos que ter coragem para fazer esse exercício muito difícil, até porque muitos de nós se apavoram só de imaginar aquilo que se descubra quando se destapar.

Quando se destapar, a certeza que eu tenho é que iremos ter que lidar com coisas muito desagradáveis, é como abrir a Caixa de Pandora, que passarão a fazer parte da nossa realidade, e esta será modificada radical e rapidamente.

Ainda não se fez porque preferimos contornar os problemas, mesmo que isso exija iludirmo-nos, ainda não estamos preparados para esse confronto com o real que todavia parece cada vez mais inevitável.

Quanto mais se esperar, mais profundo será o choque.”

Alfredo Sá Almeida – “Joaquim Serra parece-me uma excelente tática para ‘destapar a panela’ e retirar muita da pressão que existe sobre este tema. Quem sabe obteríamos muitas boas surpresas de Pessoas, mediática e eticamente relevantes, que ajudariam a mudar decisivamente as regras do jogo.”

Alekh Lisboa“Se a pobreza não fizesse tantos ricos já tinha acabado!”

 24 de Fevereiro de 2018

Anúncios

7 thoughts on “Poderemos erradicar a pobreza, para sempre?

  1. Olá, amigos. O que vou escrever é, antes de mais, ao correr da “pena”, sem rascunho nem revisão. Pretende ser uma análise muito sumária (e, por isso, muitas vezes incompleta e inconsistente, de como o ser humano se foi formando entre constantes contradições, antagonismos, inteligências e demências. Tudo o que escreverei é fruto de pesquisas recentes que renovaram a informação e me despertaram novas reflexões. Vejamos então. Com a complexidade crescente da sociedade humana, sobretudo a partir das comunidades arcaicas (já depois do Paleolítico), a história fez-se precisamente de desigualdades (em qualquer domínio que não apenas o económico). Essas desigualdades e paradoxos tornaram a sociedade humana dinâmica ao ponto de não saber viver sem antagonismos. Numerosos autores ligados à sociologia e também à biologia evolutiva e à neurociência, consideram que a sociedade humana não teria progredido se se tivesse transformado num Éden eterno. Num paraíso terrestre as pessoas seriam iguais em deveres, direitos e regalias, mas a sociedade perderia a sua complexidade e ter-se-ia enfraquecido, e o “homo sapiens” teria sido extinto por acomodação ao bem-estar (perderia a hipótese da criatividade atuante e campos distintos da arte). Ou seja, foi nas dificuldades e nas desigualdades que irrompeu a natureza humana ao ponto de ter sido a única espécie símia que foi capaz, por exigência (forçada) dos distintos ecossistemas e dos enormíssimos problemas, a criar civilizações e a chegar aos 8 mil milhões de habitantes e ao Espaço (o que é apenas um exemplo da sua capacidade tecnológica e científica). O homem, assim que se libertou do determinismo biológico (o único, aliás, que o conseguiu), adquirindo livre-arbítrio e auto-consciência, foi empurrado para a defesa das adversidades crescentes (predadores, catástrofes, eras glaciares, coexistência com outros “homos” menos desenvolvidos e mais animalescos – que viviam em bandos e se comportavam como predadores), e através de nichos ecológicos bem definidos formou comunidades que se autonomizaram e também se afastaram umas das outras até estarem representados em todos os continentes desde há milhares de anos. A complexidade passou à hipercomplexidade quando se formou a Era Histórica (a paleo e a arcaica foram entretanto morrendo à medida que os seus representantes foram perdendo resistência e se extinguiram, por ventura às mãos dos “homos”). Houve um tempo em que coexistiram 5 espécies distintas de “homos”, naturalmente com interesses diferentes e provavelmente com faculdades diferentes: uns mais próximos de outros primatas, outros mais evoluídos mas jamais identicos ao “sapiens”. Devido à pressão biológica – como acontece em outros mamíferos – houve a necessidade de defenderem os seus interesses da cobiça alheia (como acontece nos outros mamíferos, por razões várias como a fome, a defesa territorial, etc). De passagem, diga-se que não seriam gentes dotadas de grandes manifestações de altruísmo para com os “outros” que, tal como nos restantes mamíferos, estariam dispostos a mostrar os dentes a quem ousasse ameaçar o seu espaço. Formaram-se culturas distintas e comportamentos biologicamente egoístas (por necessidade de defesa). Quando a complexidade comunitária (cidades e nações), já muito mais recente, atingiu proporções impensáveis, o homem viu-se perante situações novas e desafiadoras. A fome tanto como a cobiça dos outros povos obrigaram à criatividade que deu origem ao fabrico de artefactos que melhorassem a qualidade de vida já de si dificílima – a esperança de vida rondaria os 30 anos de idade aquando da Invenção da Agricultura (feito atribuído às mulheres). Antes da cultura (em que as crenças, a magia e os mitos são as primeiras manifestações) havia comportamentos seguramente ditados pelos genes antigos, herdeiros dos primeiros anfíbios 500 milhões de anos antes. E, nesse capítulo, temos a explicação para o comportamento feroz, predatório, em constante defesa/ataque, destituído de sentimentos conscientes no mundo animal (nunca houve um tempo “em que os animais falavam e eram “bonzinhos). Atingimos a juventude da espécie “homo sapiens sapiens” há pouco mais de 4 mil anos ao fim de 2 milhões de lenta e atribulada evolução e desevolução, avanços e recuos. E ainda estamos nessa situação. Não estamos no fim da História (Fukuyama, 1992) mas no início da História Humana (Morin, 1973). Olhamo-nos no espelho e não nos reconhecemos, tal qual uma criança de 2 anos de idade. Gatinhamos sobre os escombros das atrocidades mas também pilotamos naves espaciais com joysticks em Houston. Somos ainda os mesmos de há 6 ou 7 mil anos, com ligeiras diferenças: desenvolvemos uma consciência mais acutilante, um cérebro mais robusto mas com 30% ainda arcaico que nos torna seres biológicos sujeitos a instintos que têm mais tempo do que nós porque os herdámos de outros animais. Sim, também temos 30% de neocortex capaz de pensamentos e de planeamento. Mas lá no meio, nos restantes 40% temos o cérebro mamífero, animado por 200 emoções, muitas quais primitivas e que estão tanto ligadas aos instintos (sobretudo de sobrevivência) como ao cérebro executivo (os lobos frontais, a única parte que nos distingue dos chimpanzés mais perspicazes onde o seu volume ocupa apenas 16 a 17% de todo o cérebro, já de si bem mais pequeno que o nosso). Em 2 milhões de anos fomos nitidamente conquistando o Planeta. É este espírito de conquista e exploração que nos move e anima, muitas vezes com excessos de todo o estilo. A riqueza e a pobreza devem ser encaixadas nesta longa história em que ainda somos infantis demais para através da educação sermos capazes de travar pulsões e impulsões de forma definitiva. Porque a educação tem milhares de anos, ou mesmo milhões. Mas foi uma educação para a competitividade, o logro e a sobrevivência. E a cultura, fortemente influenciada pelas religiões, manteve-nos acorrentados ao passado e ainda somos os mesmos (os nossos genes não se renovaram nem se reinventaram): os Portugueses roubaram 15 milhões de africanos às suas terras e venderam-nos aos novos colonos das Américas; os Espanhóis desmantelaram civilizações que não eram tão pacíficas como alguns historiadores nos quiserem fazer acreditar e desfizeram-se de milhões de indígenas; os Nazis quiseram ser os senhores do mundo por 1.000 anos (como já haviam tentado os Romanos); os Estalinistas matariam mais gente do que os Nazis numa época em que já eu era nascido……A História a que estamos amarrados continua. Os genes ainda não se deixam dobrar pela educação apesar, como noutras épocas anteriores, se tenham feito progressos. Já temos Declarações Universais de diversos direitos. Mas a sua aplicação esbarra contra a crueza da história carregada de incertezas, acasos e ambiguidades. A hipercomplexidade atual (visível nas megametrópoles como Xangai – a propósito, a população urbana chinesa aumentou em 500 milhões de pessoas nas últimas três décadas) tornará mais difícil o equilíbrio porque é no desequilíbrio que se fez e continua a fazer a natureza humana. Ora o homem prossegue na sua infância – a infância da Humanidade – e com isso carregado de dúvidas e fragilidades, cometendo, à menor ideia vinda dos fundos do cérebro arcaico, as maiores atrocidades. A educação tem um papel pontual, apontado para determinados fins mas não conseguirá jamais modificar o rumo do ser humano enquanto, através da conspiração de factores-chave como a genética, o ambiente, o cérebro e a cultura (cultura que continua conspurcada por mitos, rituais, crenças descabeladas e muita ignorância), a História – sobre a qual temos pouco controlo (ao contrário do que nos parece) – não continuar o seu caminho traçado há 2 ou 3 milhões de anos até à nossa extinção e ao aparecimento de um novo “homo”, uma nova espécie, talvez melhor (assim tem sido após cada extinção anterior), com mais cérebro (em que 50% seja feito de um cérebro novo, um neocortex mais maduro, fruto da evolução dos anteriores). E, tal como nas anteriores espécies, acredito que esse novo Homem já esteja em gestação entre nós (o filósofo Ken Wilber acredita que 0,1% dos humanos esteja em transformação rumo a um ser mais espiritual, mais interessado no SER e muito menos no TER. Sinto que eles já andam por aí, ou pelo menos os seus progenitores, porque isto de novas espécies nem sempre se faz por evolução gradual mas por atalhos e saltos, como aconteceu com muitos pássaros das Galápagos que, ficando isolados e distantes das ilhas originais, tiveram de se adaptar dando origem a novas subespécies. Tudo isto não significa que abdiquemos da Educação como ferramenta de Cultura e Evolução. O que pretendi foi apenas precisar que não é numa nem em duas gerações de “homos” com cérebros 30% arcaicos que vamos mudar o mundo. E é por isso que as atrocidades continuam, o obscurantismo mantém-se firme mesmo nas sociedades ditas avançadas, a pobreza e a riqueza se mantêm firmes. Avancemos para um mundo melhor mas com a certeza que não é uma tarefa de resultados garantidos porque queremos acreditar nisso. O determinismo biológico, que nos liga ao mundo animal, que nos faz depender das leis da Natureza (ou não tenhamos dentro de nós mais bactérias do que células!!!!), ainda tem e terá muita força. “Por detrás de cada homem inteligente há um louco em potência”, pronto a agir em defesa dos seus interesses mais mesquinhos (Edgar Morin). Desculpem a síntese que não foi revista e por certo que estará cheia de pontos em branco e ligações. NL

    • Muito grato pelo seu comentário recheado de Evolução, Conhecimento e Determinismo Biológico, caro amigo Nelson Lima. Também concordo que a evolução não é um processo contínuo, mas sim sujeito a ‘saltos’ por vezes quânticos (mais energéticos). No entanto, o nosso conhecimento e desenvolvimento tecnológico também aumentou exponencialmente. Infelizmente as nossas Inteligência e Consciência Coletivas ainda são muito infantis. Independentemente disso também somos capazes, como Humanidade, de dar provas de Evoluções bem mais harmoniosas e de Valor. Existem bons exemplos disso por esse mundo fora. Por outro lado, também somos suficientemente teimosos para colocar os nossos interesses acima do Bem-comum (apesar de já termos dado provas que o sabemos utilizar). Pois bem, o que seria interessante verificar prende-se com o modo como utilizamos o Conhecimento (cada vez mais global e estatístico). Sabemos e conhecemos significativamente as realidades mas não tomamos as decisões que seriam as mais inteligentes, nem em consonância com a nossa Consciência Humanista. Será que ainda nos deixamos dominar pelos 30% arcaicos do nosso cérebro? Aceitamos (?) a pobreza como um mal natural quando temos as condições e o saber que nos permitiriam dar uma maior dignidade à condição Humana. Será que estamos condenados a morrer frustrados por não conseguirmos cumprir os nossos desígnios como Espécie? Temos muita consciência histórica dos males que infligimos e somos capazes de aprender com os erros, mas não somos capazes de os corrigir? Somos capazes de aprender matérias de enorme complexidade, mas não somos capazes de executar políticas complexas na resolução dos problemas que criámos? A questão que quero aqui colocar, com veemência, é a da nossa Vontade Coletiva como Seres Humanos conscientes, inteligentes e construtores de Futuro. Será que não somos capazes de transmitir convenientemente este sentir e esta vontade de fazer melhor numa Educação para TODOS? Temos uma vontade ‘férrea’ para determinadas coisas mas para outras somos negligentes e permissivos. Utilizemos este nosso Caráter resiliente para nos desenvolvermos como espécie Humana e Sábia (Era do Sofoceno).

  2. Pois é, meu caro Alfredo Almeida. Grato pela sua reação. Quanto mais procuro mais aceito a nossa herança histórica e da qual não nos livraremos tão cedo. É óbvio que cada um de nós, os mais conscientes, poderemos dar valor ao que se considerou chamar os “valores humanos”, onde incluo naturalmente a ética, a moral, o altruísmo, etc., mas mais as provas são consistentes quanto à infantilidade do Sapiens Sapiens. Não somos muito diferentes do que éramos há 100 anos, há 1.000 ou há 10.000. Somos os mesmos seres, obviamente mais dotados de ferramentas (aliás, o homem é o ser que mais adaptado está a criar ferramentas, incluindo as intelectuais como a escrita), mantemos a mesma matriz e, tal como os nossos antecessores, poderemos levar milhões de anos a evoluir. Porque, repare, só não há mais maldade expressa em actos porque a Justiça evoluiu e criminalizaram-se muitos dos actos humanos até há bem pouco tempo aceites pacificamente: por exemplo, o incesto, a pedofilia, a escravatura e a bigamia eram frequentes no século passado. Eu, enquanto criança, fui colocado numa fábrica a trabalhar (tinha 10 anos) e foi isso até que me fez atrasar na escola e só fui para a universidade aos 30 anos de idade. Claro que eu não gostava de ter aquele trabalho (ainda por cima com máquinas de corte de tábuas de madeira e sem qualquer proteção do corpo). Mas aquilo era ainda tido como normal e aceitável. Ninguém questionava, Nem eu mesmo. É certo que muito se evoluiu desde então graças à modernização dos Estados e a governantes dotados de alguma sabedoria. Mas vivemos sempre numa sociedade feita de paradoxos graças a uma espécie de “ignorância existencial”. A própria igreja católica – que dominou o Ocidente durante 2 mil anos – foi e ainda continua a ser conservadora e ela mesmo um ninho de intrigas, interesses e malfeitorias (afinal, por que pregou Cristo, o revolucionário?). Aliás, as igrejas tornaram-se indústrias da crença em Deus e temos hoje o comércio religioso para vender “santinhos”, “água benta” e até comprar “direitos”. Estamos ainda subjugados por mitos, muitos deles arcaicos. Ou seja, o ser humano ainda está na sua infância enquanto ser vivo e tem de aprender com os erros. Mas isso levará tempo, muito tempo, porque por baixo das aparências eu continuo a ver um primata ingénuo apesar de inteligente. Mas o ser inteligente não o torna mais capaz a não ser no tal uso das ferramentas. E aí, sim, sempre progrediu porque nasceu para isso mesmo. E criará objectos “inteligentes” por curiosidade e interesse. Continuo a não acreditar que nascemos bons e nos tornamos maus. Não. Nós somos ainda o homo habilis, o homo erectus e o homo sapiens num só corpo. O passado ainda habita em nós e os nossos genes, que detêm um peso considerável, ainda não se deixaram domar e nem vão deixar porque têm milhões de anos de evolução e aperfeiçoamento. Acredito numa educação pró-ativa que ensine as crianças a olharem para si mesmas e para o mundo com uma outra visão mas…….sou muito cético, confesso, e não me deixo entusiasmar facilmente quando aos 72 anos já tanta coisa vi que só tem dado crédito ao que a ciência tem descoberto. Ainda temos muito que caminhar, sofrer e melhorar. Os que já ultrapassaram a condição de escravos dos instintos e do determinismo biológico (tanto quanto os limites impostos pela Natureza) serão os primeiros a descobrir que há mais mundo do que a cegueira em que milhões têm vivido. Ao fim de 900 gerações já evoluímos bastante mas ainda estamos longe do que nos poderá salvar e fazer catapultar para uma nova sociedade mais equilibrada, justa e consciente dos valores que andamos a pregar. Porque, caro Alfredo, muitos dos pregadores são, eles mesmos, os nossos algozes. É da natureza humana. E, como muito bem disse Edgar Morin, nós somos para a Natureza apenas mais uma espécie que anda no planeta como já andaram durante milhões de anos os dinossauros. Um dia, antes mesmo de evoluirmos um pouco mais, seremos exterminados como muitas outras espécies o foram. Desta vez, porém, talvez por nossa própria culpa porque não temos sabido usar as tais ferramentas. Só de lembrar-me que um polémico governante sugeriu que cada professor deve andar com uma arma no bolso para proteger os alunos de possíveis tiroteios contra gente tresloucada é revelador do quanto estamos bem enfiados no reino dos predadores. É louvável todo o esforço em prol de uma educação para a Paz e a Valorização do Ser Humano – e o meu amigo tem sido um bom exemplo – mas não acredito em milagres, a não ser muito pontuais: 8 mil milhões de humanos (a maior parte dos quais iletrada e prisioneira de crenças abjectas) são muita gente para governar porque, sozinhos, comportam-se como o mais errático e incerto dos seres vivos alguma vez existentes. Não sou reducionista mas sim, sou céptico. Mas tal não significa que até ao fim dos meus dias não continue a defender e a lutar por uma sociedade mais consciente, mais moralizada, mais evoluída e mais livre. Porque, infelizmente, até a liberdade que tanto queremos tem de ser objecto de leis, regras e demais barreiras para não nos eliminarmos uns aos outros por causa da força do egoísmo e do egocentrismo tão típicas do modelo humano atual e que anda por aí à solta. Até ao dia de amanhã, meu amigo, morrerão mais uns milhares de seres humanos baleados ou esfomeados e nascerão mais uns quantos cujo futuro é uma incógnita. Os nossos descendentes não serão muito diferentes de nós porque continuo crente de que somos uma espécie com características que não mudam de uma geração para a outra. Seria um caso único na história do mundo. Abraço!!!

    • Muito grato, caro amigo, pela sua contribuição para este debate. Esta é a realidade que dói a muitos, mas também àqueles que gostariam de ver e participar em mudanças efetivas para um Ser Humano de maior Valor, com uma contribuição positiva para o nosso Futuro Coletivo. Pela minha parte não me conformo com esta realidade e tudo farei para contribuir para uma mudança desta mentalidade. Sei que terei uma tarefa árdua pela frente mas acredito que “o Homem nasce BOM, mas a Sociedade o corrompe” (Rousseau). Compreendo o seu ceticismo, mas também sei que é um inconformista. Eu quero continuar a ser um inconformista de Valor Humano como o meu amigo. Não desisto tão fácil dos desígnios que considero positivos e de Valor para o Ser Humano. Um grande abraço!

  3. Meus amigos, sinto-me grato pelos vossos comentários, muito enriquecedores para mim, e ampliador da consciência que precisamos ter daquilo que nos influencia e condiciona.
    Sem dúvida alguma que a nossa condição humana é limitada, por muitos factores exógenos, como também pelos nossos factores endógenos, fisicos, mentais, intelectuais, psíquicos, bacteriologicos, enfim, tanto uns como outros de forma determinante. Antropologicamente, sociologicamente, economicamente, eticamente, moralmente, até matematicamente e estatiscamente, poderemos abordar o problema da pobreza.
    É um problema que me incomoda, psicologica e economicamente, e para ser sincero, também me afecta moral e eticamente.
    Num exercício de senso crítico e analítico, que muitas vezes é mais psicológico do que lógico, mas mesmo sob qualquer uma dessas duas “lentes” com que se faça esse exercício, no século XXI, com todo o conhecimento, informação, tecnologia, ciência, que possuímos, e a História que conhecemos, todos eles e mais alguns factores que nos modelam a consciência, não podemos atribuir ao acaso ou a uma evolução natural da da espécie humana a pobreza que estigmatiza a maioria da Humanidade.
    Há razões específicas, e uma delas, talvez a mais significante, é a existência de Homo neanderthalensis entre os Homo Sapiens sapiens. (para dar uma conotação socio-antropológica)
    Não se extinguiram como se julga, há muitos, e alguns usam gravata, além disso ocupam posições social, economica e politicamente de detenção de poder, que usam para estruturar juridicamente a vida de toda a gente.
    A característica mais marcante desse neo-Neanderthalensis, de gravata e perfumado, é a Deficiência Cívica.
    A possibilidade de um futuro para os Homo Sapiens sapiens, penso eu, passa por uma ou por todas as seguintes três alternativas:

    – Educação de “Base” para os Neanderthalensis de forma a que possam viver em harmonia com os Sapiens sapiens. É que muitos da espécie H. Sapiens pertencem à variedade Benevolus Activus e os Neanderthalensis têm uma predilecção especial pelo “bullying” sobre eles, tanto social e psicológica como economicamente. É um assédio terrível, mas muito subtil, efectuado com recurso a uma retórica cheia de justificativas.

    – Educação de Qualidade para os Homo Sapiens sapiens. Isto é importante para que os Sapiens sapiens ganhem uma consciência individual mais digna de si próprios, decente, e condizente com o estatuto de Sapiens, e deixem de acreditar nas boas “intenções democráticas” dos Neanderthalensis que usam essa retórica demagógica só para terem a oportunidade de os atasanar com mais “bullying” e explorá-los economicamente. (e ainda se riem por cima!)

    – Como os Sapiens sapiens são bastante mais inteligentes, mais afectos ao desenvolvimento, afinal são eles que desenvolvem mais ciência e tecnologia e são mais criativos em ideias, enquanto os Neanderthalensis só têm mesmo é dinheiro (são “agarrados” nessa religião), os Sapiens poderiam inventar umas naves para os Neanderthalensis irem prospectar ouro em Marte. As naves nem precisariam de chegar perto de Marte, bastava apenas que saíssem da órbita da terra, e pronto, problema resolvido.

    Poderia encontrar-se outra via, uma quarta via, mas essa implicaria arranjar um grupo de Sapiens da variedade Traquinus Radicalensis para “dialogarem” em pé de igualdade com os Neanderthalensis e pô-los no seu devido lugar. É uma solução difícil por esta espécie estar em vias de extinção, e agrupá-los torna-se bastante complicado. Outro aspecto negativo é que a maioria dos Sapiens Benovolus Activus, muito susceptíveis, são pouco cooperativos com os Traquinus Radicalensis, pois olham-lhes para a “fisionomia” e ficam confusos, não conseguindo distinguí-los dos Neanderthalensis. Os Benevulus Activus não têm Consciência de Classe, ou de espécie aqui neste caso. Também porque quem lhes paga (tricle-down) são os Neanderthalensis, e como é óbvio eles não querem perder o rendimento. Isso dá-lhes pavor, por mais que não seja, porque vivem endividados aos Neanderthalensis. (Chega a dar a impressão que os Neanderthalensis são mais espertos que os Sapiens)

    A pobreza é um círculo vicioso.
    Como eu já disse, comparável à “Caixa de Pandora”, a qual ninguém quer romper o selo que a mantém fechada, sagrada, ignorada.
    O que mais nos limita e nos domina são os mitos, os tabus, os arquétipos, os preconceitos, as mentalidades, as etiquetas, os estereótipos, as conveniências e as conivências oportunistas.

    • Muito grato caro amigo pela sua contribuição para o desenvolvimento deste tema. Adorei o enredo e o argumento que envolve os Neanderthalensis, os Sapiens Benovolus Activus e os Sapiens sapiens. Estou de acordo consigo e não está muito longe da verdade dos factos. Aliás acho estranho como Pessoas inteligentes consideram que deixa de ser Pobreza acima de 1.90 $ por dia! Já nos habituámos a ver medirem a Felicidade através do dinheiro, agora querem habituar-nos a medir a dignidade e o estado de pobreza de um Ser Humano pelo rendimento diário. Considero ridículo e atentatório da condição Humana. Infelizmente transformaram a Pobreza num círculo vicioso indigno de Seres Humanos e ainda têm a distinta ‘lata’ de lhe atribuir um ‘desvalor’ em dinheiro para tranquilizar os inconscientes. Muito grato pela sua contribuição, caro amigo.

  4. Pingback: Títulos dos textos publicados no Blog – ‘saalmeida’ – sobre Valor Humano – Valor Humano

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s