O Mundo Global e as transformações necessárias

Global World

Nas últimas décadas temos assistido a um aumento significativo da dimensão do mundo ‘globalizado’ graças ao incremento notável das comunicações, dos fluxos informativos, dos níveis de escolaridade e formação, do desenvolvimento da internet e suas tecnologias, da mobilidade das Pessoas, entre muitos outros domínios.

A título de exemplo vou mencionar o aumento significativo do número de diplomados em Portugal, nos últimos 25 anos.

No intervalo de uma geração verificou-se um aumento de cerca de quatro vezes no número de estudantes que concluíram licenciatura, mestrado ou doutoramento. Sem dúvida notável.

Diplomados Portugal - Evolução

Sem dúvida que poderemos considerar este caso como uma tendência típica a nível global. Sobretudo no mundo dito ‘ocidentalizado’.

Esta evolução contribui para um aumento dos níveis de desenvolvimento dos Países e Regiões onde ocorrem, e, por consequência, um aumento da dimensão do Mundo Global.
A questão que pretendo colocar para reflexão prende-se com os níveis de consciencialização dos grandes problemas a nível mundial e como os resolver.

Será que este aumento vertiginoso dos níveis de escolaridade, que se verificam em todo o mundo, estão a aumentar a Consciência Coletiva sobre as questões fulcrais que contribuirão significativamente para a dimensão do mundo global?

Entre os problemas prementes do mundo globalizado devemos resolver prioritariamente as grandes ameaças para o Futuro da Humanidade (https://api.globalchallenges.org/static/files/prize-letter-en.pdf) – Laszlo Szombatfalvy:

1. Alterações climáticas, que podem tornar o planeta inabitável;
2. Degradação ambiental em larga escala, que coloca em risco o abastecimento de água e alimentos, reduzindo a resiliência do ecossistema;
3. Conflitos violentos, (guerras civis, genocídios, limpeza étnica) que podem desencadear riscos de utilização de armas nucleares e/ou de destruição em massa;
4. Pobreza extrema, que é uma catástrofe em curso e que afeta mais de 1 bilhão de pessoas;
5. Rápido crescimento populacional em que se torna previsível uma população mundial de 10.000.000.000 de Seres Humanos em 2050;

A resolução destas ameaças é essencial para a ‘saúde’ do Mundo Global.

Simultaneamente foram estabelecidos, pela ONU, os objetivos do Desenvolvimento Sustentável para 2030, na sequência dos objetivos do Milénio (2000 – 2015):

Goals 2030 UN SDG

Significa que é necessária e urgente uma transformação do Mundo Global, para podermos encarar o Futuro com maior otimismo. Mas também se torna necessário um maior conhecimento e consciência das questões coletivas que beneficiarão um maior número de Pessoas de modo sustentável.

Temos de admitir que a Felicidade Social e coletiva contribui para a Felicidade individual e vice-versa.

Assim sendo, preocupam-me vários aspetos que se estão a desenvolver neste nosso mundo globalizado e, aparentemente mais desenvolvido, que têm sido objeto de estudos: o individualismo, o egoísmo e o imediatismo. São três atitudes que em nada contribuem para uma globalização saudável nem para o aumento dos níveis de Consciência Coletiva, em direção a um Futuro Coletivo e sustentável.

Existem aspetos de mudanças positivas, nas atitudes e comportamentos das Pessoas, que se estão a difundir em maior escala, e que contribuem para os desígnios que mencionei. Estou a falar de um artigo muito interessante do Gustavo Tanaka (26/5/2017) “Há algo de grandioso acontecendo no mundo” (http://guiadaalma.com.br/ha-algo-de-grandioso-acontecendo-no-mundo/). Recomendo uma leitura atenta deste texto para se aperceberem das mudanças que estão a ocorrer.

Segundo este autor o mundo está se transformando e menciona um conjunto de motivos que o levam a acreditar nisso. “São os seguintes:

1. Ninguém aguenta mais o modelo de emprego;
2. O modelo do empreendedorismo também está mudando;
3. O surgimento da colaboração;
4. Estamos começando finalmente a entender o que é a internet;
5. A queda do consumismo desenfreado;
6. Alimentação saudável e orgânica;
7. Despertar da espiritualidade;
8. Movimentos de ‘desescolarização’ (hackschooling, homeschooling).”

Termina, dizendo: “Silenciosamente, as pessoas estão acordando, se dando conta da loucura que é viver nessa sociedade. Olhe para todos esses movimentos e tente pensar que tudo está normal. Eu acho que não está. Há algo de muito extraordinário acontecendo no mundo.”

Estas mudanças reativas nas atitudes e comportamentos das Pessoas são importantes. Mas gostaria de lembrar que têm de ganhar sustentabilidade e globalidade para terem um contributo duradouro.

No entanto, outras tendências menos positivas tomam forma e difundem-se rapidamente. Estou a falar do Individualismo e do Imediatismo.

Sobre estas lamentáveis características Humanas, para o Mundo Global, relembro aqui dois artigos muito interessantes sobre estes temas:

“Individualism is Spreading, and that’s Not Good”Derek Beres (24/07/2017) (http://bigthink.com/21st-century-spirituality/individualism-is-spreading-and-thats-not-good?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1506225659)
“Cultura do imediatismo”Bolívar Torres (11/07/2013) (https://oglobo.globo.com/amanha/tudo-ao-mesmo-tempo-agora-um-fenomeno-da-era-digital-8969361#ixzz2YePd8tLG)

Estes artigos mencionam os estudos e reflexões escritas de Douglas Rushkoff (“Present shock: When everything happens now” – 2013) e de Henri Santos, Igor Grossman e Michael E.W. Varnum (“Global Increases in Individualism”, Psychological Science (13/07/2017) (http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0956797617700622)), matérias importantes para compreendermos os perigos dum Futuro desajustado dos anseios de um Mundo bem Globalizado.

Segundo estes autores “Infelizmente, os seres humanos tendem a notar apenas o que é imediato, o que faz sentido nas tribos, mas cria problemas substanciais nas Nações legisladas por um governo. Promove um impulso para o individualismo em que as preocupações dos poucos se tornam mais importantes do que o bem-estar dos muitos. Torna-se América. E a América está se espalhando.
Mais genericamente, o valor “ocidental” do individualismo está se espalhando, de acordo com a nova pesquisa publicada na Psychological Science. Examinando 51 anos de dados cobrindo 78 países coletados para o levantamento de valores mundiais, os autores Igor Grossman e Michael E.W. Varnum descobriram que não são apenas as culturas ocidentais que se tornam mais individualistas. Como reporta Science Daily.
Em geral, as culturas individualistas tendem a conceber pessoas como autossuficientes e autónomas, e elas tendem a priorizar a independência e a exclusividade como valores culturais. As culturas coletivistas, por outro lado, tendem a ver as pessoas ligadas aos outros e inseridas num contexto social mais amplo – como tal, tendem a enfatizar a interdependência, as relações familiares e a conformidade social.”Derek Beres.

Se pretendemos um Mundo Global onde os Valores Humanos contribuem para um Futuro Coletivo em Paz duradoura e onde as diferenças culturais estão em equilíbrio dinâmico com os anseios dessa Globalização, vamos ter de mudar as nossas atitudes e comportamentos. Vamos ter de melhorar significativamente a nossa Inteligência e Consciência Coletivas e ser capazes de transformar os sistemas educacionais dos Países em algo que esteja consonante com a Globalização e Sustentabilidade que pretendemos no Futuro.

Alfredo Sá Almeida                                                                              26 de Setembro de 2017

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Cultura de Crise

Medo que o País pense

Legenda: Intelectuais e cientistas apresentaram um manifesto contra a crise, na Fundação Gulbenkian, pela afirmação da cultura, das artes e da ciência. (29/Jan./2014) – (http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/contra-a-cultura-da-crise-a-cultura-da-resistencia-1621643).


Esta crise que se iniciou em 2008, como uma crise financeira global (à escala mundial), colocou a nu todas as outras crises que o mundo alimenta.

É triste verificarmos como a falta de dinheiro, que comanda a vida de muitas pessoas, tem uma capacidade de desestabilizar toda a estrutura psicológica de um Ser Humano em maior grau que muitas outras crises não monetárias.

Mas esta crise financeira global não é mais do que uma ENORME CRISE DE VALORES. E não são quaisquer Valores, são VALORES HUMANOS.

A meu ver os Valores Humanos são o núcleo interno e profundo, sem o qual todas as crises podem acontecer.

Sem a preocupação de ser exaustivo vou mencionar algumas:

  1. Crise na Educação;
  2. Crise Ambiental;
  3. Crise Cultural;
  4. Crise Política;
  5. Crise Civilizacional; etc.

Todas estas crises têm uma marcada causa Humana, pois nós somos os únicos que consumimos desenfreadamente os recursos do Planeta, para nosso proveito, e somos os únicos seres pensantes com capacidade de destruir mais que qualquer outra espécie. Somos mais especialistas em desequilibrar do que em equilíbrio dinâmico. Ao ponto de nos faltar inteligência para construir equilíbrios de desenvolvimento Humano duradouros, essenciais a uma evolução sustentada da nossa espécie com um sentido de Futuro Inteligente e longínquo.

Todos nós sabemos que caminhar para o Futuro tem um grau de incerteza natural, de quem constrói o desconhecido. Mas há algo que o Homem inteligente pode fazer, que é orientar-se para diminuir o grau de incerteza.

A grande maioria destas crises possui variadíssimas causas:

  1. Corrupção;
  2. Interesses Corporativos;
  3. Interesses Financeiros;
  4. Interesses Militares;
  5. Influências Políticas;
  6. Incompetência;
  7. Falta de regulamentação;
  8. Fraude; etc.

O Homem tornou-se especialista na Cultura do Imediatismo (http://informacaoemcena.blogspot.pt/2013/07/cultura-do-imediatismo.html) que possui uma capacidade ‘corrosiva’ em todos os domínios da Vida. Somos Seres com grande potencial inovador e de criatividade, mas não sabemos lidar com as consequências dos nossos actos. Ao ponto de nos deixarmos enredar numa sequência de acontecimentos em cascata pelo facto de aceitarmos tomar meias decisões, ou, encurtar o caminho que conduz a uma verdadeira decisão.

O Homem possui a capacidade de desenvolver procedimentos elaboradíssimos para resolver problemas, sejam de natureza social, financeira, económica, educacional, cultural, etc. mas a grande maioria das vezes os problemas ficam por resolver convenientemente. Devido a:

  1. Os procedimentos não são universais;
  2. As soluções são parcelares;
  3. Os procedimentos estão desfocados do problema;
  4. A Justiça que complementaria a boa aplicação dos procedimentos não acompanhou o processo;
  5. Uma boa parte dos intervenientes no processo estão desatentos na aplicação dos procedimentos;
  6. Os procedimentos são incompreensíveis para a maioria das Pessoas;
  7. Os interesses dos intervenientes no processo não coincidem;
  8. Existe manifesta má-fé na aplicação dos procedimentos;
  9. Quem elaborou os procedimentos tem interesses considerados privilegiados a preservar;
  10. A participação das Pessoas é diminuta;
  11. Esta lista seria interminável dada a diversidade de casos.

Deste modo, não é de estranhar que o Homem ande de crise em crise até à derrocada final, que será uma crise de proporções catastróficas. Nessa CRISE a Humanidade sofrerá um enorme revés e tenho algumas dúvidas que possamos apelidar-nos de Seres Humanos, pela total ausência de Valores.

Desenvolvemos uma Cultura de Crise de tal forma que se tornou um bom negócio, rentável para poucos.

As Sociedades atuais possuem uma agravante nestes processos – as Democracias deixaram de representar o Povo e tornaram-se Oligárquicas. O Sistema Financeiro sobrepôs-se ao Sistema Político e os Políticos passaram a ser mais representantes do sistema financeiro do que do Povo que os elegeu.

Por outro lado, não existe vontade Política para enveredar por Democracias Participativas onde se valoriza a intervenção consciente dos Cidadãos. Nem existe uma Cultura Educativa significativa que desenvolva convenientemente as capacidades das Pessoas.

Assim, tornou-se um lugar-comum falar de MUDANÇA. Mas o que verificamos é que a referida Mudança não é efetiva, dada a miríade de interesses em jogo. Então, essas mudanças são apenas parcelares, são mais pequenas crises num contexto de uma crise maior. A ‘verdadeira mudança’ tornou-se num sistema de tal modo complexo que se fica por saber:

  1. Que Futuro estamos a construir?
  2. Quem e quantas Pessoas estão envolvidas no processo?
  3. Terão TODOS as mesmas oportunidades?
  4. Existirá uma participação livre das Pessoas?
  5. Passaremos a TER maior dignidade como Seres Humanos?
  6. A Educação será finalmente elevada à posição de PRIORIDADE?
  7. Os Valores Humanos passarão a governar o relacionamento em Sociedade?

Chagámos a um ponto onde não se debatem mais as questões principais e essenciais, que afetarão a maioria das Pessoas, mas apenas e taticamente as questões acessórias, devidamente enquadradas por uma Comunicação Social, sem Responsabilidade Social, mas focada nos interesses Corporativos vigentes.

Como exemplo do que estou a falar, menciono apenas o futuro Tratado Transatlântico (The Transatlantic Trade Investment Partnership – TTIP) http://ec.europa.eu/trade/policy/in-focus/ttip/.

Estamos a perder o verdadeiro sentido do Futuro como espécie Humana e a perder Consciência Coletiva. Tornámo-nos Seres da Cultura Imediatista, potencialmente deprimidos e com falta de Inteligência para debater questões importantes e essenciais aos Seres Humanos do Futuro.

Alfredo Sá Almeida                                                                                                      25 de Agosto de 2015